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Mouzinho: da Ribeira ao Aeroporto

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CASA DO INFANTE

© Álvaro Domingues

O geógrafo Álvaro Domingues e o arquiteto Ivo Poças Martins partem da documentação referente à intenção de rasgar a Rua Mouzinho da Silveira no Porto, em 1872, até à atualidade, numa viagem que faz cruzar tempos, lugares, cidadãos e práticas urbanas e socioculturais.

Da Ribeira a S. Bento, a Mouzinho ilustra e acompanha as grandes ruturas tecnológicas do seu tempo, produzindo uma espacialidade que durante quase um século contribuiu para fixar um centro, entretanto deslocado da Ribeira para a baixa do Porto. Hoje, do nó da Arrábida ao Aeroporto, passando por Leixões, sucedem-se focos de novas centralidades que se distribuem e se relacionam no novo mapa da urbanização em curso.

 

Em Junho de 1872, o diretor Geral da Secretaria da Câmara Municipal do Porto, Luís Antonio Nogueira apresentou à Câmara a “Planta do Projecto da rua da Biquinha parallela à rua das Flores a qual a Ex.ma Camara pretende mandar abrir para ligar o Largo da Feira de S. Bento com a Rua de S. João”.

Seria a Rua Mouzinho da Silveira. O novo eixo uniria o Porto ribeirinho e a distinta praça do Infante à praça D. Pedro IV, terminando onde viria a ser a estação de S. Bento, de onde partiria a ligação ao tabuleiro superior da ponte Luiz I (1887), seguindo para sul, para a estrada de Oliveira de Azeméis, para Lisboa.

Corria a segunda metade do séc. XIX e antes que tudo desmoronasse com a crise financeira do estado e do sistema bancário (1891), viviam-se tempos de mudança acelerada, grandes obras e inovações que mudariam radicalmente a organização da sociedade e da urbanização: o caminho de ferro, a eletricidade, o telégrafo, o motor de explosão, as estradas construídas ao modo de Mac-Adam, ou o betão.

Entretanto, enquanto se encanava o rio da Vila para traçar a Mouzinho, construíam-se os molhes de Leixões e um outro rio, o Leça, seria depois esventrado para construir uma doca artificial. Os navios aumentavam em dimensão e calado e o Douro, o porto do Porto, era cada vez mais problemático.

Em 1963 inaugurava-se a ponte da Arrábida e o primeiro tramo de autoestrada que levaria a via rápida até Leixões e mais tarde, ao aeroporto. O velho mapa mental do Porto e arredores não tardaria a explodir, dando lugar a uma vasta conurbação: a cidade perdera o exclusivo da urbanização e as medidas curtas que antes bastavam para entender o comprimento da rua Mouzinho, deram lugar aos tempos rápidos das relações e do movimento. Funções que antes se aglomeravam no núcleo central favorecido pelo monopólio da acessibilidade, distribuem-se agora nesse espaço alargado, marcando lugares, expondo os sinais da mudança.

A geografia extensa e descontínua da urbanização só é legível através das redes e sistemas de dispositivos técnicos que suportam o movimento de pessoas, mercadorias, informação, capital, água ou energia. Da Ribeira a S. Bento a Mouzinho ilustra e acompanha as grandes ruturas tecnológicas do seu tempo, produzindo uma espacialidade urbana que durante quase um século contribuiu para fixar um centro entretanto deslocado da Ribeira para a baixa do Porto. Hoje, do nó da Arrábida ao aeroporto, passando por Leixões, sucedem-se focos de novas centralidades que se distribuem e se relacionam no novo mapa da urbanização em curso. O centro do Porto perdeu o monopólio da centralidade.

É a revolução das cousas, como escreveu uma vez o conselheiro Mouzinho da Silveira a D. Pedro IV a propósito de outras mudanças de que o mundo então se compunha.

 

Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo. Para além das suas funções docentes na Universidade do Porto e noutras universidades publica com regularidade sobre temáticas relacionadas com a geografia urbana, o urbanismo e a paisagem.

 

Ivo Poças Martins (Porto, 1980) é arquiteto com uma prática que se expandiu para diversas áreas: projeto de arquitetura, desenho, escrita, cenografia e projeto expositivo, curadoria, investigação académica, cartografia e design de objetos. Licenciado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto em 2005, desenvolve atualmente a sua tese de Doutoramento no Lab2PT da Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho, com uma bolsa FCT.

BILHETES

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Praça do Infante D. Henrique